quinta-feira, 19 de abril de 2018

BRASILEIRO NA EUROPA.

LUIZA SAHD

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Como é ser brasileiro na Europa?


Luiza Sahd
19/04/2018 04h00
Disseram que voltei europeizada. (Foto: Naxos Nostalgia)
Sempre que alguém pergunta como é morar em Madri, acabo recorrendo a alguma variação da resposta “sou só uma brasileira aqui e não ‘a brasileira aqui’”, já que a pergunta pode ter um bilhão de respostas. Hoje, meu dia começou com uma cobrança esquisita de voltar ao meu país de origem.
Ao escutar que sou brasileira e progressista, um rapaz espanhol quis saber por que não volto ao meu “poço terceiromundista” para batalhar por melhores condições de vida por lá. Na visão dele, escrever sobre o Brasil morando “no conforto da Europa” é hipócrita e covarde. E ele disse assim mesmo, como se existisse sempre muito conforto na condição de imigrante. Daí, entendi que era hora de pensar direito sobre a resposta que me cabe na questão “como é ser brasileiro na Europa?”.
Para começar, quem se instala em um país estrangeiro costuma chegar com a ilusão de que o direito legal à residência é capaz de fazer com que seu cérebro — e o das pessoas ao seu redor — assimile também o direito moral de ocupar o novo espaço. Esse deve ser o primeiro engano de muitos em uma jornada tão longe de casa. Motivo: somos seres bem territoriais. Mais do que a gente supõe quando está distraído.
Por ser territorial também, passei tempo demais me sentindo uma cidadã de segunda categoria fora dos limites geográficos brasileiros. Aconteça o que acontecer, no Brasil, existe um papel dizendo que tenho direitos idênticos aos de qualquer compatriota. Na Espanha, não. A gente sabe disso quando decide se mudar, mas não prevê que pode ser constrangedor ocupar certos espaços desconhecidos.
Na Espanha, apesar de desconfiar que uma galera nasceu com alto-falantes embutidos na traquéia, me controlo para não parecer escandalosa. Não quero incomodar. Tento conter o ritmo natural da minha fala para que o sotaque não ofusque minha habilidade com a gramática castelhana. Não sou daqui. Não quero que as interações comigo sejam difíceis ou incômodas, ninguém quer. Odeio pimentão, mas não vim a Madrid explicar que esse ingrediente — onipresente na gastronomia local — é uma vingança da Mãe Terra por todo mal que fizemos a ela. Resumindo muito, vim em missão de paz e aberta a aprendizagens.
Voltando ao rapaz que se incomodou com minha presença aqui, parece que o nome dele é Pablo, então perguntei se ele sabia de onde vinha toda a riqueza européia já que, aqui, até as paredes são cobertas de ouro — e ouvi dizer que isso tinha algo a ver com recursos vindos das colônias no século 16.
Não é a primeira vez e, infelizmente, não deve ser a última que alguém vai se ver no papel desconfortável de refrescar memórias sobre aquele momento histórico em que europeu nenhum pediu licença para se instalar em terras alheias. Inclusive, entrar nem é um problema grande porque, veja, também entrei aqui. Nada contra, acho ótimo.
Diferente de boa parte dos imigrantes ou aspirantes que podem ler isso agora, o pessoal que chegou na minha terra há 500 anos não consultou ninguém antes de dizimar populações, se apropriar de recursos locais ou atropelar todos os modos de viver que não fossem idênticos ao deles. Os europeus com quem convivo costumam explicar que os colonizadores eram homens de outros tempos e já estão mortos. “Eles foram cruéis, mas morreram. Não somos eles”.
É uma resposta razoável, mas se você perguntar hoje por que é então que ainda respeitamos as divisões políticas estabelecidas por aqueles doidos de 500 anos atrás, provavelmente vai receber em troca o silêncio, um insulto ou desistência da discussão. Testei e funciona mesmo!
Não sou besta de achar que vivo em um mundo livre, ninguém vive. Se pudesse decidir, diria que circular por todas as partes sem ser incomodado deveria ser uma opção de qualquer pessoa com qualquer origem. Não chegamos a esse nível de civilização, mas se pudesse lembrar alguma coisa a todas as pessoas que estão longe de casa agora seria isso: você está aí porque pode. Exerça essa liberdade.
Respondendo ao Pablo, disse que estar aqui sem constrangimento, fazendo o que me parece importante agora, também é uma forma de exercer cidadania. Ser brasileiro e gostar de todo o conforto que a Europa pode oferecer não é errado porque, no fundo, conforto é o que toda pessoa sã deseja.
Levanta a cabeça, amigo imigrante, senão o chapéu de Carmen Miranda cai.

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