segunda-feira, 21 de março de 2016

A OPINIÃO DAS CONSULTORIAS !

'Trocar de governo daria a chance de estancar sangria', diz Armínio Fraga

Mauro Pimentel/Folhapress
Armínio Fraga, ex presidente do Banco Central
Armínio Fraga, ex presidente do Banco Central
21/03/2016 02h00


O ex-presidente do Banco Central Armínio
Fraga acredita que está mais do que claro que a gestão da presidente Dilma Rousseff "quebrou e pilhou o país".

Para ele, se não houver uma mudança tanto do governo quanto na forma de conduzir a economia, o Brasil terá um cenário de "perda de emprego e renda como nunca se viu".
"A maior vítima é o povo, que acreditou que esse modelo daria certo, se endividou e agora, como sempre, paga o preço", diz o economista, um dos formuladores do programa do candidato tucano Aécio Neves em 2014.
Fraga não acredita que a presença do ex-presidente Lula no governo mudaria o quadro de desconfiança de empresários e consumidores na economia. E ressalta que é preciso agir logo para "estancar a sangria".
"Mantenho alguma esperança, mas o tempo que nos resta é curto", afirma o economista, que é sócio da Gávea Investimentos.
Fraga diz que mantém contato com pessoas do PSDB e de outros partidos. Ele acredita que a perda de credibilidade da classe política como um todo com a Operação Lava Jato pode atrapalhar a adoção de um programa para recuperar a economia, mas defende as investigações:
"A Lava Jato precisa ir até o fim, não se pode abrir mão disso", afirma.
Questionado sobre a possibilidade de integrar um eventual governo de transição, responde que não.
Leia a seguir a entrevista que concedeu à Folha por e-mail na semana passada.
*
Folha - A turbulência política atual pode piorar a recessão?
Armínio Fraga - O estrago é geral. Desde 2014 a responsabilidade fiscal foi abandonada. O crescimento da dívida pública é galopante e põe em risco o trabalho de décadas.
Como se isso não bastasse, o modelo de gestão da economia opaco, populista e dirigista garante que não se pode contar com avanços na produtividade.
A deterioração já se faz sentir em toda parte e tende a piorar. Falo de perda de emprego e renda real como nunca se viu. A maior vítima é o povo, que acreditou que esse modelo daria certo, se endividou e agora, como sempre, paga o preço.
Qual é a principal lição que essa crise deixará?
Que não há atalhos. O desenvolvimento de uma nação requer um Estado decente e competente e uma visão de longo prazo, focada em aumentar a poupança e o investimento e melhorar continuamente a educação e a produtividade. O populismo de hoje é a antítese disso, um desastre.
Que medidas emergenciais precisariam ser tomadas para reverter o quadro atual? O sr. vê condições de isso ser feito pelo governo Dilma?
O desafio fiscal é enorme e urgente, e a máquina do crescimento está totalmente quebrada. O quadro requer, portanto, uma resposta ampla e convincente, que incluiria um Orçamento base zero, desvinculado e desindexado -no qual se criaria espaço de manobra e gestão, base para uma reforma do Estado-, além de reformas tributária, trabalhista e previdenciária, choque de gestão, foco no investimento em infraestrutura.
Enfim, um novo rumo para o país. O governo e seu principal partido não dão nenhum sinal de que proporão um caminho minimamente razoável. Seu histórico não ajuda, e hoje seguem com propostas malucas. Não vejo como avançar assim.
A confiança no futuro é considerada fundamental para o desempenho econômico. O ex-presidente Lula conseguiria recuperar essa confiança caso permanecesse no governo?
Infelizmente não creio nisso. A guinada na direção errada começou no segundo mandato do ex-presidente e foi mantida e turbinada até hoje pela atual, que segue lá insistindo, falando em responsabilidade fiscal e crescimento e fazendo o oposto.
Como o sr. avalia a ideia de usar as reservas internacionais para pagamento da dívida pública?
Acho uma ideia equivocada. Daria algum espaço para ela fazer mais do mesmo, que está provado que não funciona, e algum dinheiro para gastar sabe-se lá como. E fragilizaria uma situação já bem precária.
Reformas que são citadas como necessárias para que o Brasil retome o crescimento envolvem retirar benefícios de alguns grupos da sociedade. O sr. acredita que existe consenso para fazer essas mudanças?
Do jeito que vai a coisa, os benefícios serão retirados da pior maneira, via recessão e, eventualmente, inflação. Seria muito melhor fazer as correções de rumo de forma a trazer de volta a confiança e o crescimento.
No momento não há consenso, mas com uma eventual troca de governo teríamos uma chance de pelo menos estancar a sangria, enquanto se aguardam eleições e uma liderança com mandato para ir mais fundo nas mudanças. O debate é complicado, mas já está mais do que claro quem foi que quebrou e pilhou o país. Mantenho alguma esperança, mas o tempo que nos resta é curto.
A Lava Jato tem levado a um descrédito grande da classe política. Mesmo que haja uma transição de governo, isso não pode dificultar a adoção de medidas para recuperar a economia?
Pode sim. Mas a Lava Jato ao final vai ter feito uma boa triagem, criando condições para uma guinada cultural e uma reforma política que, com o tempo, ajudariam a recuperar a governabilidade e alguma confiança da sociedade brasileira na política. Vai levar tempo, mas não há alternativa.
A Lava Jato teria o mesmo apelo caso a economia não estivesse em crise profunda? A conhecida frase "é a economia, estúpido" se encaixaria no nosso contexto atual?
A doença que se manifesta na crise é em parte a mesma que a Lava Jato procura curar, não dá para separar uma da outra. Tem a ver com um desenho de Estado e economia cheio de incentivos perversos, com uma cultura complicada. A Lava Jato precisa ir até o fim, não se pode abrir mão disso. Todo cuidado é pouco aqui.
O senhor se afastou da política depois de 2014 ou continua colaborando com o PSDB?
Mantenho contato com pessoas do PSDB e de outros partidos também.
O sr. aceitaria um convite para participar de um governo de transição?
Não.
A situação da economia global dificultaria tentativas de reanimar a economia brasileira?
Sempre afeta. Hoje o dinheiro no mundo está barato, o que sempre empurra algum para cá. Isso pode em algum momento se reverter, especialmente nos Estados Unidos. E tem também o preço das commodities, que andou caindo muito. Mas o que importa mesmo é o que vai acontecer aqui dentro.
Acabou a era de expansão dos países emergentes?
Os emergentes vivem um momento difícil. Mas, repi-
to, que nada se aproxima em importância das respos-
tas que serão ou não dadas à crise atual.

A produtividade da economia brasileira estancou. Isso tem nos deixado para trás em um mundo de rápidas transformações tecnológicas. Dá para recuperar o tempo perdido?
Sim. Depende de muita coisa, especialmente de uma educação melhor, de uma agenda de reformas e de uma integração com o mundo. Uma "vantagem" de nos encontrarmos na lastimável posição atual é que há muito o que melhorar.
RAIO-X
Armínio Fraga

Formação
Economia pela PUC-Rio, doutor pela Universidade
de Princeton, nos EUA

Carreira
> Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central entre 1991 e 1992
> Trabalhou com George Soros entre 1993 e 1999
> Presidente do Banco Central entre 1999 e 2002
> Em 2003, fundou a gestora de recursos Gávea Investimentos, que recomprou do JPMorgan no fim de 2015 

Mercado









Consultorias veem chance de até 75% de haver impeachment



A velocidade e a intensidade dos mais recentes fatos políticos surpreendem, mas economistas de importantes consultorias não hesitam em definir um cenário mais provável para o desfecho da crise: o
impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Na semana passada, aumentaram as apostas na interrupção do mandato. Algumas consultorias divulgam uma probabilidade para o impedimento -que estão entre 70% e 75%.
As estimativas foram feitas após os mais recentes protestos contra o governo, a indicação de Lula para o posto de ministro-chefe da Casa Civil e a divulgação das gravações telefônicas entre o ex-presidente,
Dilma e outros aliados. Elas não consideram, no entanto, as manifestações de sexta-feira (18) a favor do governo.

Os principais argumentos dos economistas para incorporar o impeachment de Dilma no cenário mais provável -ou "cenário-base", no jargão do mercado- são a força das ruas e a falta de capacidade do
governo de formar uma coalização anti-impeachment no Congresso após a divulgação das gravações.

A consultoria norte-americana Eurasia estima entre 65% e 75% a probabilidade de Dilma deixar o Palácio do Planalto. Para os analistas, no entanto, o desfecho não ocorrerá antes de maio.
A MB Associados trabalha com a expectativa de ruptura de 70%. "Isso pode ser lido como quase uma certeza de que a presidente não consegue chegar ao fim do mandato", diz o economista-chefe da
consultoria, Sergio Vale.

O cientista político e analista da consultoria Tendências Rafael Cortez faz uma análise semelhante. "A combinação entre a pressão social e a crise de legitimidade resultou na elevação da probabilidade de
interrupção do mandato de 55% para 70%."

Cortez reconhece que a nomeação de Lula, se confirmada, dá fôlego ao governo, mas diz que não há sinais concretos de reversão da tendência para o impeachment.
A consultoria MCM também considera que os últimos eventos políticos "aumentaram acentuadamente" a probabilidade de aprovação do processo de impeachment no Congresso, o que pode ocorrer em
cerca de 30 dias.

A expectativa de mudança no governo também está refletida nas negociações no mercado de câmbio e na Bolsa. Em março, o dólar comercial acumula queda de 9,3% e o Ibovespa tem alta de 18,7%.
"A expectativa de mudança de um governo de esquerda, em qualquer lugar do mundo, faz as Bolsas subirem, e o contrário é verdadeiro", afirma Fábio Silveira, diretor de pesquisa econômica da GO
Associados.

Silveira também trabalha com o cenário de impeachment como mais provável, mas ressalta que os problemas do país não acabarão.
"A confiança pode melhorar um pouco, mas os fundamentos vão continuar ruins." 

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