sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

SADIA : Meritocracia.



Uma dose de Ambev na Sadia | 12.03.2007
Em busca de melhores resultados e de mais eficiência, a Sadia injeta agressividade e critérios de meritocracia em sua cultura



Por Daniella Camargos
EXAME No final do ano passado, a publicitária Maria Elena Lioi, gerente de mídia da Sadia, foi recompensada pela primeira vez em oito anos de companhia com um pacote de benfeitorias. Graças a seu desempenho, considerado excepcional, ela recebeu aumento de salário, opções de compra de ações e um bônus tonificado -- tudo numa só tacada. Maria Elena, de 37 anos, faz parte de um grupo de funcionários que se beneficiaram diretamente dos novos critérios de meritocracia adotados recentemente na Sadia, uma das maiores empresas de alimentos do país. O processo teve início em 2005, quando o engenheiro Gilberto Tomazoni, de 48 anos, assumiu a presidência e introduziu uma série de medidas em busca de mais eficiência. Entre as principais mudanças, além dos pacotes de remuneração, estão o estabelecimento de metas mais ambiciosas e uma política para estimular o empreendedorismo e a competitividade entre os funcionários. Em outras palavras, trocar uma postura de certa acomodação, fruto de anos de liderança inconteste, por outra, bem mais agressiva. "Queremos gente com ousadia e que aceite correr riscos", diz Tomazoni.

O choque na cultura corporativa da Sadia tem como objetivo injetar doses extras de energia em um negócio cujo tamanho resultou em lentidão. Com uma receita líquida de 6,9 bilhões de reais, a maior empresa brasileira de alimentos e carne processada mostrou na última década índices de crescimento pouco expressivos. Ao mesmo tempo, viu a distância que a separava da principal concorrente, a Perdigão, diminuir rapidamente nesse período. Em 1995, o faturamento da Perdigão representava apenas um terço do da Sadia. Desde então, a Perdigão praticamente triplicou suas vendas. Os executivos e analistas de mercado perceberam ainda que entre 2003 e 2004 os índices de rentabilidade da Perdigão melhoraram sensivelmente enquanto os da Sadia pioraram. A frustrada tentativa de compra da concorrente, em julho do ano passado, por meio de uma oferta hostil, adicionou um ingrediente ainda mais amargo a essa situação. A operação transformou-se numa sucessão de constrangimentos que desembocou recentemente na acusação na Securities and Exchange Commission (SEC), nos Estados Unidos, de uso de informação privilegiada por parte de Luiz Gonzaga Murat Junior, ex-diretor financeiro da Sadia e um dos homens mais fortes da corporação.


Gilberto Tomazoni
Presidente da Sadia
Idade 48 anos
Formação acadêmica
Formado em engenharia mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pósgraduação em desenvolvimento gerencial
Carreira
Começou na Sadia em 1983, na área de projetos e implementação de novos sistemas produtivos. Antes de assumir a presidência foi diretor de marketing e vendas
Desafios
•Tornar a Sadia a empresa mais competitiva do mundo no setor de alimentos
•Introduzir conceitos pouco comuns à cultura interna, como meritocracia e rigor no cumprimento de metas
•Realizar mudanças sem abalar os valores tradicionais da empresa

Em meio a essa situação, Tomazoni estabeleceu a meta de transformar a Sadia, segundo suas próprias palavras, "na empresa mais competitiva do mundo em seu setor". Sua maior inspiração ao disseminar a nova cultura na Sadia veio do modelo adotado pela Ambev -- uma das empresas mais admiradas por ele, segundo pessoas próximas à companhia. "Ele gosta do estilo agressivo da empresa e volta e meia cobra dos funcionários a mesma postura arrojada adotada na cervejaria", diz um funcionário da Sadia. A nova cultura adotada pela Sadia abrange todos os escalões. Vendedores são estimulados a ultrapassar a cota de vendas e funcionários das fábricas a superar a produtividade estipulada. Caso consigam -- e eles têm conseguido --, recebem uma recompensa em dinheiro, um troféu e uma carta assinada pelo presidente reconhecendo o êxito. A nota obtida pelo funcionário em cada avaliação passou a ser determinante na evolução de sua carreira e nos seus ganhos futuros. Além disso, o desempenho de cada unidade é hoje avaliado mensalmente e divulgado na forma de ranking na intranet. "Isso estimula a competitividade interna, o que é ótimo para os resultados", diz Tomazoni. Outro ponto de convergência entre as duas empresas é o perfil dos executivos desejado pela Sadia. Três membros do alto escalão vieram da cervejaria: o diretor de marketing, Gilberto Sampaio, o diretor de recursos humanos, Eduardo Noronha, e o responsável pelas vendas para pequeno varejo, Sidney Manzaro. "To mazoni e o presidente da Ambev, Luis Fernando Edmond, são amigos e trocam experiências pelo telefone freqüentemente", diz um consultor da área de varejo.

Com uma história de mais de duas décadas na Sadia -- foi seu primeiro e único emprego --, Tomazoni é cuidadoso ao comentar sua admiração pelo modelo de gestão da Ambev. "Não imitamos a cultura deles, apenas nos inspiramos no que há de melhor no seu processo de meritocracia, como também nos inspiramos nos processos da Natura e da Embraco, por exemplo", diz. Entendem-se os motivos de seu comedimento. A Sadia é uma companhia historicamente bem-sucedida e tradicionalíssima -- e organizações assim costumam rejeitar modelos externos. Além disso, hoje a própria Ambev revê algumas de suas práticas de motivação de funcionários, consideradas agressivas em excesso. Desde meados do ano passado, a cervejaria vem introduzindo, por pressão da Interbrew -- companhia belga que comprou a Ambev gerando a Inbev --, práticas mais benevolentes com os empregados. Na Sadia, as medidas adotadas por Tomazoni nos últimos dois anos foram suficientes para que líderes sindicais do setor alimentício o qualificassem como "intransigente" nas negociações salariais e de "ter desprezo às relações humanas". À margem das críticas, os resultados da Sadia têm animado executivos, acionistas e analistas de mercado -- e isso mesmo em um ano difícil como 2006, em que o setor foi fortemente abalado pelo surto mundial de gripe asiática. A Sadia teve um desempenho financeiro melhor que o de sua principal concorrente. No ano passado, seu lucro líquido teve queda de 42,6% (de 657 milhões de reais para 357 milhões). Na Perdigão, a queda foi de 67,5% -- de 360 milhões de reais para 117 milhões. "A gestão mais agressiva da Sadia foi crucial para esses resultados", diz Antônio Heluany Neto, analista da corretora Ágora. Apesar dos bons resultados registrados até agora, Tomazoni tem um longo caminho até transformar a Sadia na empresa mais competitiva do mundo em seu setor. Atingir sua meta será fundamental para repelir ou revidar o esperado ataque de gigantes internacionais, como a Tyson Foods.


Acabou a moleza
Os principais pontos do plano do presidente Gilberto Tomazoni para mudar a Sadia
Metas ambiciosas
A empresa estipulou metas mais rígidas, como aumento de produtividade das fábricas em 5%
Controle obsessivo de custos
A companhia tem implementado medidas como a criação do Centro de Serviços Sadia, em Curitiba, que diminuiu em 15% os custos em 2006
Contratação de profissionais arrojados
Três altos executivos recentemente contratados para as áreas de marketing, recursos humanos e vendas para pequeno varejo têm passagem pela Ambev
Remuneração agressiva
O bônus para executivos triplicou, passando de seis para até 18 salários, de acordo com os resultados alcançados
Cultura empreendedora
A empresa treina seus funcionários para atuar como se fossem donos do negócio e buscar sempre resultados mais ambiciosos

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